top of page

CÂNON DA SEPTUAGINTA

 

TIPO TEXTUAL 

   As diversas diferenças existentes entre a Septuaginta (LXX) e o texto hebraico massorético (TM) sempre intrigaram os estudiosos, os quais debatiam o motivo de tais diferenças. Eruditos cristãos primitivos diziam que os judeus haviam corrompido os textos hebraicos para apagar as referências messiânicas citadas no Novo Testamento; a inexistência de um texto hebraico semelhante à Septuaginta levantava muitas questões, porém a descoberta dos manuscritos de Qumran deu muitas respostas ao problema referente ao texto grego. Os manuscritos descobertos em 1947 nas cavernas da Judeia demonstraram que nos tempos antigos havia vários tipos de textos hebraicos que circulavam entre os judeus, alguns mais próximos ao texto hebraico massorético, e outros à Septuaginta.


As semelhanças entre os manuscritos hebraicos encontrados e o grego demonstram que os tradutores da Septuaginta possuíam em mãos diversos textos hebraicos que não correspondiam com exatidão ao texto que hoje possuímos (TM), mas textos que circulavam entre os judeus das eras passadas, que foram abandonados no uso das sinagogas após a adoção do TM como texto padrão. Uma vez que os manuscritos de Qumran chegaram até nós de forma muito fragmentada, a única versão completa desse tipo textual é a Septuaginta, atestada em apenas pequenas porções dos fragmentos encontrados.


   As diferenças com o Texto Massorético não se explicam apenas pelo uso de um texto hebraico antigo pelos tradutores, também por interpretações diversas que os tradutores fizeram do texto hebraico. As ideias encontradas no texto grego revelam o pensamento doutrinário que havia entre os judeus de Alexandria, ou no mundo judaico helenista.

CÂNON 

   Outra difrença encontrada na Septuaginta são as coleções de livros encontradas nos manuscritos dessa versão das Escrituras. Além do arranjo dos livros ser ligeiramente diferente, ele incluía alguns livros utilizados pelos judeus de Alexandria que não são encontrados no Texto Massorético, os quais são: Sabedoria, Siraque (ou Eclesiástico), Tobias, Judite, III Esdras, IV Esdras, os quatro livros de Macabeus, Baruque, além de acréscimos aos livros de Salmos, Ester, Daniel e também o texto da oração feita por Manassés ao se arrepender. O cânon da Septuaginta pode ser assim disposto:


TORAH 

Gênesis
Êxodo
Levítico
Números 
Deuteronômio

HISTÓRICOS 

Yeshua filho de Nauê
Juízes
Rute
I Reis
II Reis
III Reis
IV Reis
I Crônicas
II Crônicas
I Esdras
II Esdras
III Esdras
IV Esdras
Tobias
Judite
Ester
I Macabeus
II Macabeus
III Macabeus
IV Macabeus

SAPIENÇAIS 

Salmos (com acréscimos)

Provérbios
Eclesiastes
Cântico dos Cânticos
Sabedoria de Salomão
Siraque (Eclesiástico)
Odes de Salomão

PROFETAS 

Isaías
Jeremias
Baruque
Lamentações
Ezequiel
Daniel
Oseias
Amós
Miqueias
Joel
Obadias
Jonas
Naum
Habacuque
Sofonias
Ageu
Zacarias
Malaquias

 

História da Septuaginta e Formação do Cânon

 

O processo de tradução da Septuaginta começou com os livros do Pentateuco (isto é, a Torá: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Esta foi a primeira e, por um tempo, a única parte das Escrituras hebraicas traduzida para o grego. A Torá foi traduzida por volta de 280 a.C., a pedido da comunidade judaica de Alexandria, que já não dominava o hebraico, devido à forte influência da cultura helenística.

A Adição Gradual de Outros Livros

A tradução dos livros restantes do Antigo Testamento foi um processo gradual que se estendeu pelos séculos seguintes (c. século III a.C. ao século I a.C.).

  • Profetas e Escritos: Após a Torá, os livros dos Profetas (como Isaías, Jeremias, Ezequiel) e os Escritos (como Salmos, Jó, Provérbios) começaram a ser traduzidos e adicionados.

  • Textos Deuterocanônicos: Durante este período, a coleção grega (a LXX) também passou a incluir textos que foram escritos originalmente em grego ou que eram traduções de textos hebraicos ou aramaicos posteriores, que não foram aceitos no cânon judaico hebraico final (conhecido como Cânon Massorético/Palestinense).

    • Exemplos de livros (ou partes) que foram sendo acrescentados e que a Igreja Católica chama de Deuterocanônicos são: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (Sirácida), Baruque, I e II Macabeus, e acréscimos a Ester e Daniel.

    • Esses livros surgiram em diferentes períodos, como o livro do Eclesiástico (ou Siraque), que foi escrito em hebraico por volta de 180 a.C. e traduzido para o grego por seu neto, que chegou ao Egito por volta de 132 a.C., demonstrando que a coleção já estava em expansão.

 

Assim, a LXX se tornou uma coleção maior de textos sagrados, amplamente utilizada pelas comunidades judaicas de língua grega (Diáspora), e posteriormente, foi a Bíblia utilizada dos primeiros cristãos.

A Variedade nos Manuscritos da Septuaginta

Um ponto crucial é que a Septuaginta não é um único livro homogêneo com um cânon fixo, mas uma coleção de traduções gregas que variou ao longo do tempo e entre as comunidades. A prova disso reside nos grandes códices bíblicos cristãos antigos, que contêm a LXX. Eles demonstram que não havia um padrão canônico estático da LXX nos primeiros séculos da era cristã.

 

Codex Vaticanus (B):

Séc. IV d.C.

Quase todo o AT (LXX) e NT.

Inclui a maioria dos livros deuterocanônicos, mas omite 1 e 2 Macabeus, o Livro da Sabedoria e o Eclesiástico (Salomão).

 

Codex Sinaiticus:

Séc. IV d.C.

Quase todo o AT (LXX) e NT completo.

Inclui Tobias, Judite, 1 e 4 Macabeus, Sabedoria de Salomão, Epístola de Jeremias, e mais, apresentando um cânon bem alargado.

 

Codex Alexandrinus (A):

Séc. V d.C.

Bíblia completa (LXX e NT).

Inclui todos os deuterocanônicos, além de 3 e 4 Macabeus e o Salmo 151, com um cânon mais extenso ainda.

Codex Ephraemi Rescriptus (C):

Séc. V d.C.

Fragmentário.

Contém fragmentos dos livros deuterocanônicos, indicando sua inclusão na LXX utilizada.

 

A diversidade observada nesses códices, alguns dos mais antigos e importantes que sobreviveram, comprova que as listas de livros variavam. O que um códice incluía, outro omitia, ou incluía em ordem diferente. Isso reflete o fato de que a Igreja primitiva grega ainda não possuía um catálogo rígido e definitivo de quais livros adicionais da LXX deveriam ser considerados canônicos, mesmo que muitos desses textos fossem lidos e tidos em alta estima.

 

O Cânon Adotado por Comunidades Históricas

 

A Septuaginta, com seu cânon mais amplo, influenciou profundamente o cristianismo:

 

Os Primeiros Cristãos e a Igreja Oriental

  • Os apóstolos e escritores do Novo Testamento frequentemente citavam a LXX, pois era a versão das Escrituras mais acessível no mundo greco-romano.

  • A Igreja Oriental (Ortodoxa), que herdou o contexto cultural grego da LXX, tende a aceitar um cânon do Antigo Testamento mais amplo, que pode incluir até mesmo 3 e 4 Macabeus e outros textos, embora possa não os considerar com a mesma autoridade que os livros hebraicos originais, chamando-os de anagignoskomena (livros para serem lidos).

 

A Igreja Ocidental e o Cânon Católico

 

  • Na Igreja Ocidental, houve debate. Teólogos como Agostinho favoreceram o cânon mais amplo da LXX, que incluía os Deuterocanônicos. No entanto, Jerônimo, ao traduzir a Vulgata (Bíblia Latina, c. 400 d.C.), preferiu ater-se ao cânon hebraico (o cânon palestinense), chamando os livros adicionais da LXX de Apócrifos (escondidos). No entanto, ele os incluiu na Vulgata a pedido do Papa Dâmaso.

  • O Cânon Católico Romano foi formalmente definido no Concílio de Trento (1546), em resposta à Reforma Protestante. Este cânon adotou os 46 livros do Antigo Testamento, que correspondem aos 39 livros do Cânon Hebraico mais sete livros Deuterocanônicos da LXX (Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, I e II Macabeus, e acréscimos a Daniel e Ester).

 

A Reforma e o Cânon Protestante

 

  • Durante a Reforma Protestante (séc. XVI), reformadores como Martinho Lutero decidiram seguir o cânon mais restrito do Cânon Hebraico Massorético (o cânon judaico da Palestina).

  • O Cânon Protestante contém 39 livros no Antigo Testamento, os mesmos do cânon judaico. Os livros Deuterocanônicos/Apócrifos da LXX e do Cânon Católico são excluídos do cânon protestante por não terem sido aceitos pelos judeus no cânon hebraico e serem considerados pelos reformadores como não tendo a mesma autoridade canônica.

 

Conclusão

 

A Septuaginta (LXX) foi o ponto de partida para a formação dos diversos cânones cristãos do Antigo Testamento, pois era a Bíblia da Igreja primitiva.

  • O Cânon Católico é o que mais se aproxima da coleção ampliada de livros encontrados em muitos dos grandes códices da LXX.

  • O Cânon Protestante diverge da LXX em seu conteúdo final, pois priorizou o Cânon Hebraico Massorético, que excluiu os livros Deuterocanônicos presentes em muitos manuscritos da LXX.

Em suma, a história da LXX demonstra que o processo de formação do cânon foi orgânico e dinâmico, culminando em diferentes listas de livros consideradas autoritativas por diferentes comunidades.

bottom of page